Caros leitores, espero encontrá-los bem, na graça de Deus. Nossa família franciscana muito se alegra nesta década. Há vários centenários que foram e estão sendo celebrados ao longo deste período, desde a Regra Não Bulada (2021) à construção da Basílica de Assis (2030). Recordar estas datas não é apenas lembrar a história ou visitar um museu, mas oportunidade de mergulhar no mistério divino que guiou a vida daquele que chamamos de Seráfico Pai São Francisco.
Nós não teremos a oportunidade por agora de refletir sobre todos esses jubileus. Porém, em três ocasiões vamos olhar com maior atenção para alguns deles. Nosso projeto é conversarmos, queridos leitores, sobre a importância de Gréccio (1223), dos Estigmas (1224), e do Cântico das Criaturas (1225), somado à morte de São Francisco (1226). Essas datas têm muito a nos ensinar. Desta vez, começamos pelo Natal de Gréccio.
Em 1223, nosso São Francisco tem uma inspiração vinda do Senhor. Deixemos que um de seus biógrafos, cujo nome é Tomás de Celano, nos conte o que ocorreu:
Uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo [um senhor de nome João] […] e disse: “Se você quiser que celebremos o Natal em Gréccio, é bom começar a preparar diligentemente e desse já o que vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e contemplar com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro”. Ouvindo isso, o homem bom e fiel correu imediatamente e preparou no lugar indicado o que o santo tinha pedido […]; Gréccio tornou-se uma nova Belém, honrando a simplicidade, louvando a pobreza e recomendando a humildade (1Cel 84.85). 1
São Francisco não estava simplesmente querendo montar um teatro. Não! Ele queria experimentar o quanto possível o grande mistério daquela noite de Belém, onde Deus nos mostrou seu amor, assumindo nossa carne, nossa humanidade e nascendo frágil como uma criança. Prestemos bem atenção! Se viesse poderoso, com manifestações admiráveis na natureza, talvez tivéssemos medo de nos aproximar. Mas, pergunto aos senhores: quem tem medo de chegar perto de uma criança? Que belo! Deus, em forma de criança, para que não tenhamos medo de chegar perto dele, já que Ele se aproximou de nós. E, como nos ensina um Bispo da Santa Igreja, Dom Henrique Soares, esse menino, nosso Deus, não é Deus sem nós nem é Deus longe de nós, mas EMANUEL, que é “DEUS CONOSCO” (Cf. Is 7,14; Mt 1,23).
O Seráfico Pai era um profundo contemplador dos mistérios de Deus. Seu olhar não se contentava com superficialidades. Ele desejava mergulhar cada vez mais neste amor que a tudo envolvia. Por isso, fica maravilhado diante do amor divino que se revela no presépio. São Francisco é tocado pela bondade do Senhor que, mesmo sem merecermos, vem ao nosso encontro, assumindo nossas fragilidades, para tudo reconduzir a Deus. Ele é o Deus humilde, que não se amedronta perante nossa pequenez. Mais! Faz-se pequeno como nós! Isso encanta São Francisco, gerando nele um desejo ardente de corresponder a este amor. Com este desejo, o Pobrezinho de Assis, gastará toda sua vida a serviço de Deus, da Igreja e da humanidade.
O presépio, pois, questiona nosso orgulho, nossa prepotência, nosso desejo de estar sempre à frente, mostrando-nos como grandes para esmagar os pequenos, justamente por medo da exposição de nossas fraquezas. São Francisco entende que esse não é o caminho ensinado pelo Senhor. Nosso Deus, ao inverso de nossa lógica mundana, inclina-Se, vem ao encontro, salva-nos por Seu amor e Sua proximidade. O Natal de Belém e de Gréccio como que gritam suavemente para São Francisco e para todos, em todos os tempos: “Ele está no meio de nós”. Nessa confiança, aprendamos as lições humildes de Belém: “todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11) . E o primeiro que se abaixou foi nosso Deus. Sigamo-Lo, pois.
1 FONTES FRANCISCANAS. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 2005, p. 242.
Fr. Antônio Felipe de Oliveira Zago, OFMConv.
Franciscano Conventual