Caríssimos leitores, já vimos que a Família Franciscana em 2023 celebrou o oitavo centenário do Presépio de Gréccio, expressão do grande amor que São Francisco tinha pela humildade do Deus que se abaixou até nós. Desta vez, vamos refletir um pouco sobre outra comemoração desta década: os 800 anos dos Estigmas do Pobrezinho de Assis. Na Quaresma de São Miguel, em 1224, ele subiu ao monte Alverne e, no fim desta período, teve uma belíssima experiência de Deus. Em sua oração, ele pediu reverentemente a Jesus:
Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas coisas te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto possível, aquela dor que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima Paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para de boa vontade suportar tal paixão por nós pecadores 1. (CCE 3,38).
Notemos, caros irmãos, o amor que o santo de Assis tinha pelo Senhor. De fato, é isso que moveu cada entrega que São Francisco realizou durante sua vida, cada missão, cada sofrimento suportado. Na Cruz de Jesus, por perceber nela o Deus que se doa inteiramente por amor do Pai e de nós, ele encontrou o sentido de sua vida. E, vendo-se atingido por este imenso amor, quis fazer de sua vida também uma total entrega, um pleno se consumir pelo projeto do Deus Criador e Redentor. A resposta de Deus a seu pedido foi marcá-lo com os Estigmas.
Certa vez, São Francisco saiu pelas proximidades da Igreja de Santa Maria da Porciúncula chorando. Uma pessoa o questinou, ao que ele respondeu: “Choro a Paixão do meu Senhor, e por isso não deveria envergonhar-me de andar pelo mundo inteiro chorando em alta voz” 2. Ele chorava porque percebia em si e no mundo como o amor divino não era correspondido. Na experiência da fé, o amor de Deus está antes de qualquer atitude nossa. São João nos ensina que “não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10). A atitude de fé já é uma resposta a esse amor divino que vem ao nosso encontro.
A vida de São Francisco, foi uma busca de corresponder plenamente a este amor. Ele procurou entregar tudo o que tinha, para cada vez mais ficar parecido com o Senhor que lhe cativara o coração. No fim de sua existência terrena, recebeu a graça de até fisicamente se assemelhar ao Cristo Jesus que ele tanto amou.
Agora, resta-nos tirar lições de seu exemplo. A vida cristã é seguimento a Jesus, que nos amou por primeiro. Depois do encontro com o Crucificado em São Damião, São Francisco foi cada vez mais aprofundando sua entrega a Deus, consumindo-se por Ele nas pregações, no cuidado com os leprosos, no testemunho aos irmãos, nas longas distâncias percorridas em missão, no cuidado com a Ordem que nascia, nas correções fraternas, entre tantas outras coisas.
O encontro com o amor divino leva a uma consequência: fazer da vida uma plena doação. Isso é compromisso de todos nós. Que a celebração dos Estigmas de São Francisco nos ajude a pensar sobre nossas atitudes e valores que temos abraçado. Afinal, algumas coisas que assumimos para nós servem apenas para desfigurar a expressão do nosso amor. Somente nos ferem. Não são essas as chagas de que precisamos! As chagas de São Francisco são aquelas que provêm de uma história de amor. Que sua intercessão nos ajude a deixar as escolhas que nos machucam e afastam de Deus, para que nossa vida, como a do Seráfico Pai se transforme em uma total doação, sobretudo àqueles que mais precisam do cuidado divino. Assim, nossa vida também trará as marcas das chagas do verdadeiro amor.
1 – FONTES FRANCISCANAS. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 2005, p. 841.
2 – FONTES FRANCISCANAS. Santo André: Mensageiro de Santo Antônio, 2005, p. 625.