Vivemos tempos desafiadores. O mundo em que estamos inseridos carrega feridas profundas: desigualdades que persistem, crises ambientais que ameaçam a vida e uma indiferença crescente diante do sofrimento do outro. No meio de tudo isso, a juventude é chamada a assumir não somente a fé, mas também o compromisso com a transformação social.
Apesar de encontrarmos muitas opiniões contrárias de pessoas que não tem conhecimento da Doutrina Social Católica, o compromisso social não é algo fora da fé cristã, mas parte essencial dela. Ser jovem e ser cristão é muito mais do que o fechamento em doutrinas e ritos. É deixar-se tocar pelo Evangelho a ponto de querer mudar o mundo com gestos concretos.
Na espiritualidade franciscana, chamamos isso de “anunciar o Evangelho com a vida”. Quando um jovem decide viver a fé de forma comprometida, ele se torna sinal da presença de Deus nas ruas, nas famílias, nas escolas, nas universidades, nas redes sociais e nas periferias da cidade. A boa notícia de Cristo não pode ser alheia aos pobres, aos marginalizados, às periferias existenciais e geográficas.
O Papa Francisco, em seu documento sobre a juventude, Christus Vivit (Cristo Vive) convida os jovens a irem além dos círculos fechados e a construírem o que ele chama de amizade social: “proponho aos jovens irem mais além dos grupos de amigos e construirem a amizade social: buscar o bem comum chama-se amizade social. A inimizade social destrói” (CV 169).
É nesse caminho que encontramos também em seu sucessor Papa Leão XIV, que no dia 9 de outubro de 2025, lança a exortação apostólica “Dilexi Te” (“Eu te amei”) sobre o amor aos pobres. Neste documento, o papa chama a Igreja a redescobrir “o amor para com os pobres” como sinal constitutivo do Evangelho. Deus escolheu os pobres e quando a Igreja continua este olhar preferencial, ela está sendo fiel ao ensinamento dado pelo próprio Cristo.
Vivemos, porém, em um tempo em que a lógica do lucro comercial e o imediatismo da vida cotidiana colocam a dignidade humana em risco. O Papa Leão XIV, em continuidade do Papa Francisco, fala com clareza sobre “a ditadura de uma economia que mata” e sobre a “cultura do descarte”, que exclui pessoas como se fossem objetos sem valor.
E aqui nasce uma pergunta que precisa ecoar dentro de cada coração: qual é o papel do jovem diante de tudo isso? É nesse cenário que o compromisso social se torna um testemunho profético, o convite que a Igreja propõe é claro: ser o rosto do amor de Cristo pelos pobres. Isto se concretiza, não como uma mera opção de voluntariado, mas como estilo de vida, um testemunho de que a fé e a justiça podem caminhar juntos. Os gestos de caridade são ações incentivadas, mas devemos ir além da ajuda imediata, com propostas que geram transformações das estruturas injustas que excluem e matam.
Encerro este artigo, com um trecho muito bonito do novo documento do Papa Leão XIV: “O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de a viver. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa. Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: Eu te amei” (DT 120-121).