A COP 30 acabou? É comum após uma conferência do clima vir a sensação inicial de que poderia ter sido feito mais, devido a urgência climática. É verdade que o acordo global ambicioso sobre o financiamento climático não aconteceu, que o mapa do caminho pelo fim dos combustíveis fósseis anunciado no início da conferência não saiu na profundidade esperada mas seguirá as tratativas pós-COP 30, e que não temos um fundo robusto para perdas e danos, capaz de atender às necessidades imediatas dos países mais vulneráveis.
Em contraponto, a COP 30 promoveu a maior participação da sociedade civil na história das COPs. Foi uma das conferências com maior consenso de tomadas de decisão em temas críticos, e conseguiu, de forma inédita, colocar a transição justa e a adaptação no centro do debate. Então sim, a COP 30 foi um sucesso, e essas conquistas já são muito a se comemorar em um ambiente multilateral complexo com desafios políticos para a cooperação global.
A voz dos povos
Sem dúvidas, foi a COP com a maior participação da sociedade civil e indígenas já vista. Estive na Aldeia COP, que acolheu mais de 3.500 pessoas de mais de 100 povos e recebeu 5 mil visitantes de centenas de países, promovendo debates estratégicos e apresentações culturais, além da Cúpula dos Povos, que retomou o protagonismo dos movimentos sociais com espaços de construção coletiva.
Na Marcha dos Povos, ou Marcha Global pelo Clima, que reuniu mais de 70 mil pessoas nas ruas de Belém, foi emocionante sentir a energia do clamor por Justiça Climática e por uma transição justa e popular. Era a voz de quem sofre na pele os impactos do clima e de quem, por amar profundamente a natureza, não aceita ver a nossa Terra sangrando.
A Igreja no Brasil estava presente promovendo diversos debates sobre ecologia integral ao longo da conferência. O Movimento Laudato Si’ levou como símbolo para a marcha um rio gigante de tecido, representando a esperança e expressando seu compromisso com a justiça socioambiental e a ecologia integral e sua missão em defesa dos pobres e da Criação.
Nas inúmeras bandeiras levantadas pela sociedade civil, ficou claro que as pautas ambientais e de direitos humanos devem caminhar juntas, e isso se reflete também nos ambientes oficiais, onde houve a decisão de incorporar até a COP32 comunidades locais (afrodescendentes e povos tradicionais) nas estruturas oficiais da Convenção do Clima.
Outro grande ganho de caráter nacional foi o anúncio da demarcação de 10 terras indígenas, que foi conquistado, junto a diversas outras vitórias, após protestos pacíficos em frente à área oficial da conferência. Participei de um painel na sala da UNFCCC em que uma representante indígena, que teve suas terras demarcadas, compartilhou algo que me tocou profundamente e que transmite a importância do reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, para além da proteção florestal: “em um ambiente sem acessos a direitos, quando se nasce indígena, desde a gestação, estamos em constante luta pela sobrevivência, e isso já é um ato político revolucionário: estar vivos”.
Os marcos técnicos de Belém
Nos ambientes oficiais da COP 30, a chuva torrencial da Amazônia caindo no telhado ecoou nas salas de negociações, clamando por ação e trazendo esperança. No texto final da Presidência da COP 30, entitulado “Mutirão Global: unindo a humanidade em uma mobilização mundial contra as mudanças do clima”, ficou claro que estamos em um momento de transição definitiva do fim da era de negociações de regras para o início da implementação acelerada, uma nova década em que temos que unir esforços em uma mobilização cooperativa e integrada de todos os atores, governos, setor privado, instituiçoes financeiras, cidades, sociedade civil, juventudes e comunidades. Esse foi um marco no lançamento do Acelerador Global de Implementação, uma iniciativa para acelerar a implementação de metas nacionais de descarbonização e dos planos de adaptação das nações, superando obstáculos práticos, compartilhando soluções e escalando ações em todos os setores.
Na agenda de Adaptação, foram consensuados 59 indicadores voluntários para medir o progresso na construção de resiliência climática pelas nações, em setores críticos como água, alimentação, saúde, ecossistemas, infraestrutura e meios de subsistência, integrando as dimensões de financiamento, tecnologia e capacitação. Além disso, reconhecendo que para implementar os planos de adaptação nacionais são necessários recursos financeiros, especialmente para as nações mais vulneráveis, foi estabelecido o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2030, em pelo menos 120 bilhões de dólares por ano.
Transição Justa não foi um tema tratado apenas nas ruas, a COP 30 adotou importantes decisões que dão um grande salto nessa agenda. Foi criado um mecanismo dedicado à Transição Justa para garantir que as ações de descarbonização e adaptação sejam equitativas e inclusivas, ou seja, que haja um diálogo com todos os parceiros sociais, respeitando os direitos humanos e trabalhistas, considerando as necessidades de trabalhadores, comunidades, povos indígenas e outros grupos vulneráveis.
Na Cúpula dos Líderes, foi lançado o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) que estabelece um mecanismo de pagamentos de longo prazo para nações com florestas tropicais que promovem a conservação de suas matas nativas. O fundo tem a implementação prevista para 2026, mas já recebeu o apoio formal de 63 países e reuniu 6,7 bilhões de dólares em sua fase inicial.
Foram inúmeras conquistas coletivas. Por mais que o evento em si tenha acabado, as conferências do clima são um contínuo, a COP 30 continuará ressoando nos 11 meses restantes da Presidência da Conferência. Assim, o Brasil assumiu o compromisso de elaborar um Mapa do Caminho pelo Fim dos Combustíveis Fósseis. Um roteiro inédito para deter e reverter o desmatamento e outro para promover um afastamento dos combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa. A próxima agenda prevista para desenvolver os consensos operacionais desse tema será em abril de 2026 na Colômbia.
Por fim: um chamado de ação local e global pela ação climática
A presidência da COP 30 elaborou ao longo de 2025 uma Agenda de Ação para intensificar a implementação dos esforços já negociados em redução das emissões, adaptação às mudanças do clima e transição para economias sustentáveis, mobilizando ações climáticas voluntárias da sociedade civil, empresas, investidores, cidades, estados e países. O primeiro ano da Agenda de Ação foi comemorado em uma celebração enérgica na COP 30, anunciando a sua continuidade por mais 5 anos.
Vamos, eu e você, aproveitar esse novo ano que se inicia para transformar compromissos em realidade, com espírito de Mutirão Global pelo Clima, com ações coletivas que promovam a justiça climática, combatam a fome e a pobreza e abordem as desigualdades estruturais, incluindo as de gênero, raça e condições socioeconômicas. E no final das contas, esse será o grande legado coletivo da COP 30 em Belém.